segunda-feira, outubro 06, 2008

Os Ignóbeis

Foram atribuídos os IgNobel deste ano. O que mais me surpreende é que os autores dos artigos premiados se apresentem em Harvard para os receber, passando pela humilhação de terem 60 segundos para o discurso contados por um miúdo de 8 anos. Não consigo entender se é um exercício de demonstração de sentido de humor ou de vaidade pura.

Há uns estudos idiotas, como a capacidade espermicida da coca cola (quem terá sido a mente brilhante a tentar a façanha e a querer demonstrá-la em laboratório? Imagino um puto de 16 anos que inadvertidamente verteu a lata pelos genitais da namorada adentro e em vez de declarar milagrosa a sua não gravidez a terá atribuido à bebida caramelizada e fez disso uma tese de biologia humana) e os picuinhas que se terão dedicado a negá-la (seguramente sem nada melhor para fazer, presumo que com grupo controle a frisumo). Os franceses que descobriram orgulhosos que as pulgas dos cães saltam mais alto que as dos gatos (para quando um estudo sistemático sobre a alimentação de cada um dos grupos animais e o seu efeito no desenvolvimento das patas posteriores dos parasitas?), o italiano que modificou electronicamente o ruído das batatas fritas para soarem mais estaladiças e frescas (a mim parece-me que bastava investir na matéria prima, mas enfim), para além dos suíços que declaram a dignidade inerente às urtigas.


No entanto, o estudo que mais fez sorrir a canzoada foi o dos americanos que estudaram a influência do ciclo ovulatório (e a sua ausência, no caso das tomadoras de anti-concepcionais orais) nas gorgetas das strippers ao longo de dois meses. Evidentemente chegaram à conclusão conhecida por qualquer mulher que o ciclo ou a sua ausência tem um reflexo óbvio na sua sensualidade. Se uma mulher se sente sexy actua dessa maneira, e se faz disso vida ganha mais dinheiro nessa altura.



de G. Miller et al., Evolution and Human Behavior, 28 (2007) 375–381

Dado que em fase anovulatória as raparigas ganham em média 150 dólares, que passa a 400 no período alto de fertilidade, vai haver uma corrida aos indutores de fertilidade que nem ginjas. O que vai dar para espaço para mais estudos ignóbeis decerto.

8 comentários:

David Marçal disse...

Não pode deixar de me saltar à vista que as mulheres que não tomam a pílula ganham muito mais dinheiro no total do ciclo.

Tirando dois ou três dias do mês em que ganham mais ou menos a mesma coisa do que as tomam a pílula, nos restantes ganham sempre mais.

D. Ester disse...

Pois claro. As hormonas têm efeito directa ou inversamente proporcional à vontade sexual, que por sua vez se reflecte na atractividade. Se se elimina a capacidade hormonal de ovular também se perde a líbido decorrente, e isso é como o algodão. Há que fazer escolhas, ou tens a montanha russa (e aguentas-te à bomboca no SPM) ou tens a planície tranquila da infertilidade (em todos os sentidos).

Analizando também o gráfico e fazendo umas contas de multiplicar, chego à conclusão que as strippers do estudo ganham mais em gorjetas que eu em salário base. Se apanho a psicóloga da orientação profissional dou-lhe uma coça.

nerd disse...

só ao longo de dois meses? quais os dois meses do estudo? houve feriados nessa altura, eventos especiais - SuperBowl, World Series?

parece-me haver deficiência nas variáveis

mais uma das "Ciências Sociais" - anything goes, and everything does...

D. Ester disse...

para deitar abaixo condignamente o Miller e os colaboradores aconselho uma leitura do artigo, o pdf é de consulta livre. No entanto, posso adiantar que a recolha dos dados foi feita entre novembro de 2006 e janeiro de 2007.

David Marçal disse...

A experiência poderia ter sido feita num dia, bastava ter uma amostra razoavelmente grande para haver um número suficiente de mulheres em cada dia do ciclo, nessa data. Não se trata de uma série temporal acompanhando mulheres especificas.

Só se os feriados e o SuperBowl afectarem de um modo diferente mulheres em diferentes fases do ciclo, é que isso é relevante.

Não sou especialista nesta área, mas o artigo e o trabalho está apresentado de um modo formalmente correcto. E é uma revista que consta do science citation index com um factor de impacto de 2,5. Não é extraordinário (a Nature e a Sciende tem aproximadamente 30), mas é digno.

Podemos questionar a relevância, mas isso é mais subjectivo. Mas essa questão é extensível a muita outra ciência, com muito menos piada. E tendo em conta que esta nem me parece muito cara (as meninas vão à internet por os dias em que têm o período e as gorjetas, suponho que pro-bono) não vejo pretinência em questionar a relevância.

E ainda menos vejo algum indício de que seja o dinheiro dos contribuintes (portugueses, muito menos) a cobrir eventuais custos.


Também podemos questionar a credibilidade. Se os dados terão sido recolhidos e tratados de modo inadequado, de modo a força conclusões. Again, podemos questionar, por exemplo, a mesma coisa nas investigações feitas pelos médicos durante a sua prática clínica. Já houve muitos casos apanhados, inclusivé com pacientes inventados. E essas investigações tem menos piada e potencialmente consequencias mais dramáticas.

Um dos especialistas mundiais mais conceituados em células estaminais, o coreano Hwang Woo-Suk, foi apanhado a falsificar resultados.

Ou seja, a piada da ciência da não tem uma relação directa com a sua credibilidade.

Mas, quem tiver duvidas pode reproduzir a experiência. Fica aqui o repto: verificar a reprodutibilidade desta experiência em Portugal! Acho que ainda há muito trabalho para fazer neste tema, nomeadamente analisar outros grupos de mulheres que não apenas pílula e não pílula. Pôr hipóteses, desenhar experiencias.

:-)

director disse...

pois... porque ao que parece, os homens são iguais, sejam eles white, hispanic, workers, professional...

presume-se que não há clientes habituais...

enfim, mas sempre são 18 raparigas que introduzem 5300 dados (dizem eles) a bem da ciência.

picuinhas disse...

Desculpem abrir o parentesis...

(alguem sabe algo do nobel de hoje? o esbugalho inundou aqui o gabinete... nunca li nada dele). Opinioes pessoais sao bem-vindas.

D. Ester disse...

"Em 1994, um inquérito realizado pela revista francêsa Lire mostrou que 13% dos leitores o considera o maior escritor francês da atualidade." via wikipedia

Ora se 87% dos franceses não lhe liga pevide, sinto-me acompanhada na ignorância. Nunca li nada dele.

picuinhas, uma palavra mágica e estímulo à proactividade: google.